3 ABRIL
A Igreja Particular de Natal tem uma dívida com a V Conferência de Aparecida: “A conversão missionária das suas estruturas”. Em tempos passados, iniciando com Dom Heitor e, depois, continuando com Dom Matias, tivemos uma direção missionária com as Santas Missões Populares, através da metodologia apresentada pelo Padre Luís Mosconi. Àquela época, antes de Aparecida, já iniciáramos um grande movimento missionário em nossa Arquidiocese. As assembleias do povo de Deus, o estudo e meditação da Bíblia, a setorização paroquial, comunidades eclesiais missionárias, o protagonismo dos ministros da palavra, eram ações sobre às quais era falado e nalgumas comunidades paroquiais levadas a bom termo. Falávamos sobre missão, formação permanente dos batizados e novas lideranças, organização dos projetos arquidiocesanos com uma linha transversal, narrativas consistentes e continuadas sobre a urgência do anúncio e testemunho do Evangelho. Recordo-me de algumas paróquias que patentemente colocaram amplamente em prática aquela iniciativa, a saber: Santa Cruz, Ceará Mirim, São José de Mipibu, dentre tantas outras da nossa Igreja Local. O tempo nos levou a um certo ofuscamento destas iniciativas, em âmbito arquidiocesano, e as motivações deixaram de ser incentivadas e promovidas como um caminho pastoral a ser buscado.
Os desafios e dificuldades também existiram, como os questionamentos para a implementação do projeto em realidades mais urbanizadas e elitistas. Sem dúvida, houve o justo acolhimento das impressões que eram apresentadas. A dinâmica da evangelização do mundo urbano era, e continua a ser, uma questão a ser aprofundada por todos nós, já que pouco se tem estudado sobre o dinamismo conjuntural destes ecossistemas. Tínhamos que continuar na reflexão, amadurecimento e acolhimento das inquietações; contudo, o que era fato e importante é que tínhamos um “projeto missionário pastoral” arquidiocesano, com objetivos, planejamento, metodologia e uma linha transversal bem definida: um paradigma e um programa missionário. O Papa Francisco tratou dessa necessidade quando falou aos Bispos do Celam na sua visita ao Brasil para Jornada Mundial da Juventude, afirmando que “a Missão Continental está projetada em duas dimensões: programática e paradigmática. A missão programática, como o próprio nome indica, consiste na realização de atos de índole missionária. A missão paradigmática, por sua vez, implica colocar em chave missionária a atividade habitual das Igrejas particulares. Em consequência disso, evidentemente, verifica-se toda uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais” (cf. Papa Francisco, 28/07/2013). Analisando esse discurso do pontífice, podemos sentir que estávamos fazendo um percurso que não deveria ter sido abandonado. A sua releitura e aprofundamento ainda pode ser salutar e urgente para o reconhecimento de onde estamos e para onde queremos deveras ir com nossas atividades e eventos pastorais.
Ainda, nas trilhas da V Conferência, somos chamados a recordar do que nos ensinara aquele acontecimento sinodal sobre a necessidade de uma “ação pastoral orgânica, renovada e vigorosa, de maneira que a variedade de carismas, ministérios, serviços, e organizações se orientem no mesmo projeto missionário para comunicar vida no próprio território.
Esse projeto, que surge de um caminho de variada participação, torna possível a pastoral orgânica, capaz de dar resposta aos novos desafios. Porque um projeto só é eficiente se cada comunidade cristã, cada paróquia, cada comunidade educativa, cada comunidade de vida consagrada, cada associação ou movimento e cada pequena comunidade se inserem ativamente na pastoral orgânica de cada diocese. Cada uma é chamada a evangelizar de modo harmônico e integrado no projeto pastoral da Diocese” (cf. Doc. Ap, 169).
O sínodo que estamos para começar a celebrar, desenvolver e aplicar deve ter essa preocupação, tendo em vista o discernimento dos sinais dos novos tempos e a sacramentalidade da Igreja com sua perene vocação a ser sinal e testemunha da Esperança para a humanidade.
O sínodo pode ser um verdadeiro kairós. Um tempo em que o Espírito falará à nossa Igreja Local. Este precisa ser para cada sujeito eclesial, que está inserido na dinâmica evangelizadora das nossas comunidades, uma oportunidade para um profundo exercício da comunhão e da participação, tendo o referencial da ‘missionariedade’ como meta à qual devemos nos converter, testemunhando o ‘estado permanente de missão’ em nossas estruturas eclesiais com o olhar voltado ao mundo que nos envolve, com seus dramas e possibilidades.
A Igreja que sai às realidades de fronteiras, não teme, nem permanece encurvada em si mesma, é o que deve nos motivar e, porque não afirmar, ser a paixão do que somos e fazemos. “Ai de nós se não formos anunciadores do Evangelho”! (cf. 1Cor 9,16). Esse anúncio pode ser sistemático, permanente, já que temos um único Objeto de proclamação (cf. 1Tes 1,5).
É nessa linha da conversão ao ‘Estado Permanente de Missão’ que somos chamados a atualizar Aparecida e retomar, com novas possibilidades e ações exitosas, o protagonismo missionário que vivemos em tempos de outrora, já que evangelizar foi, é, e sempre será a razão de ser da Igreja. Assim o seja!
(*)Pe. Matias Soares
Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Capelão da UFRN
Membro da SBTM
Membro da SOTER